terça-feira, 26 de julho de 2011

O SUS para o Mundo


Conquistas e desafios do Brasil na saúde são detalhados em seis artigos de edição especial da revista inglesa ‘The Lancet’

Eliane Bardanachvili

O desafio da Saúde brasileira hoje, é político. Trata-se de promover uma grande articulação entre municípios, estados, União e as diversas instâncias da sociedade e de se fazer uma profunda revisão das relações entre o público e o privado no país, a fim de se assegurar o direito à saúde para todos os brasileiros. Essa conclusão decorre de dois anos de trabalhos intensos de 30 pesquisadores de 16 instituições do país, para a produção de seis artigos publicados na edição especial Saúde no Brasil (Health in Brazil) da revista científica inglesa The Lancet, uma das mais conceituadas do mundo. E está registrada na capa da revista. O lançamento da edição foi marcado por um seminário que reuniu por dois dias (9 e 10 de maio) os autores e outros pesquisadores, além de gestores de Saúde, na sede da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), em Brasília, e tornou-se uma oportunidade importante de debates entre os pares, conforme ressaltaram entusiasmados muitos dos que estavam presentes. “O Brasil não é para principiantes”, resumiu, citando o compositor Tom Jobim, o professor Cesar Victora, da Universidade Federal de Pelotas (RS), integrante do conselho editorial da Lancet e coordenador da publicação
sobre o Brasil. É com essa frase que ele abre o último artigo da série (ver pág. 23), um balanço dos cinco outros, que têm
como temas a história do SUS e as p r i n c i p a i s conquistas e desafios do sistema universal brasileiro; a saúde de mães e crianças; a situação das doenças infectocontagiosas e das doenças crônicas não transmissíveis e o quadro da violência e lesões (leia sobre os artigos a partir da pág. 20). “Não há uma área estudada em que não tenhamos bom grau de sucesso, mas também em que não haja algo a ser feito”, apontou. “Foi uma oportunidade de registrar a experiência brasileira para a comunidade internacional”, analisou Jairnilson Paim, um dos autores do primeiro artigo, que trata da evolução do SUS. “A publicação dá uma visão muito próxima do que está ocorrendo no país: sucessos no enfrentamento de alguns problemas, cuja base de sustentação é a existência de um sistema de saúde público gratuito, universal e descentralizado, e uma descrição muito honesta dos nossos problemas não resolvidos”, analisou Maria do Carmo Leal, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/ Fiocruz) e uma das autoras do artigo sobre saúde maternoinfantil. “Tivemos a felicidade de passar uma imagem fidedigna do país, num célere processo de modernização, com grande potencial para fazê-lo, mas simultaneamente com muitos problemas e enorme dívida social com sua população”, avaliou ela, também à frente da organização da publicação. Entre avanços e desafios, o saldo é positivo. “O que a série vai mostrar não é uma visão ufanista, unilateral, do que foi alcançado. Claro que todos os que trabalhamos nessa série somos engajados”,observou Victora, referindo-se ao perfil dos autores, militantes da saúde pública brasileira há mais de três décadas. “Então,nossa avaliação é positiva, estamos mudando muita coisa. Mas não ignoramos que existem problemas importantes”. As análises dos artigos tomaram como base uma extensa e detalhada revisão bibliográfica e um mergulho
em dados disponíveis que foram cruzados e examinados. A situação incomum de um sistema universal de saúde gratuito, para todos, em um país de renda média e baixa e mais de 100 milhões de habitantes, é o primeiro aspecto positivo a chamar a atenção no cenário da saúde brasileira.

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